; bigcitydreams

Tuesday, May 17, 2011

quando tu vai pra cidade, tu fica cinza.
tu endurece e perde um pouco do otimismo. indiferente.

não faça contato visual com ninguém no metrô. leia aquele livro que deixou pela metade na bolsa enquanto escuta aquela música deprimente que tu espera que não esteja alta demais pra vazar dos fones e os outros perceberem que tu tá ouvindo isso. finge que tu é aquele tipo de pessoa cujos pés não se movem quando o trem para [e eventualmente caia em desconhecidos a cada estação]. não levante os olhos, empurre e se enfie em buracos em que tu sabe que não vai caber e simplesmente se desloque.
na cidade, a única pessoa que importa é você mesmo. não goste e aceite isso. não fuja do seu caminho e role os olhos sempre que alguém mais devagar estiver subindo as escadas na sua frente quando você está atrasado e precisa fazer a maldita baldeação. as pessoas pedirão dinheiro nos trens. bêbados vão passar mal no banco atrás de ti e as crianças vão começar a chorar. e tu tem que fingir que elas não estão lá. é o trem. tu não conhece nenhuma daquelas pessoas.

numa cidade tão cheia de gente, tu não deve percebê-las. é uma coisa complicada, uma vez que existem tantas coisas interessantes e bonitas, a maioria delas de fones de ouvido e cabelos cobrindo os olhos. sorria pra pessoas o tempo todo sem realmente querer. quando aquele cara completamente xis falar contigo no bar, sorria, acene e saia de cena murmurando algo que nem tu entenderia. conheça MUITAS pessoas, mas just barely know them.

fique com medo de caras legais, porque tu deixou de ser legal a muito tempo. tenha medo de coisas que duram mais que dois meses. toda vez que for parar naquela parte da cidade que tu foi parar naquela noite com aquele cara que tu nunca mais viu, fique irrequieta. a cidade é grande, mas é um ovo. nunca veja ninguém de novo. só aquele garoto que trabalhou contigo a anos atrás e não faz mais parte da tua vida. comente o novo corte de cabelo que tu não gostou de verdade e diga o quão linda a tua vida é. ela não é, mas se os outros começarem a acreditar, quem sabe não te convencem do contrário.
mande e-mails pros teus pais dizendo o quão emocionante é finalmente fazer parte do mundo quando tudo o que tu sente de verdade é que está "alone in a room full of people". all the time. comece a ficar com medo da tua conta bancária. o dinheiro vai sumindo e tu nem sabe pra onde ele vai. é todo aquele álcool provavelmente. que tu nunca lembra de ter bebido.
afunde tua cabeça nas mãos quando ninguém estiver olhando. lembre-se como tu era idiota no colégio. se livre daqueles sonhos inúteis e faça novos. aja como se eles fossem seus sonhos a vida toda. comece a achar que a neblina e a poluição são românticas. comece a achar que estar empregado é romântico. beba quarta a noite. conheça pessoas nas noites de quarta e conte toda a tua vida pra elas, mas nunca dê teu número.
faça amigos que tu nunca mais vai ver. passe dias sozinha na tua cozinha [porque não cabe mais ninguém naquele cubículo minúsculo] e desista de comer. aprenda infinitas maneiras de comer tofu, e de fazer aquele cubo de tofu durar uma semana. tenha um pequeno círculo de amigas, daquelas que tu pode reclamar da vida amorosa e beber champagne de samba canção em noites de quinta feira. ame essas pessoas, elas te aturam. ache amigos de amigos que você acha bonitinhos no facebook e os esbarre "acidentalmente" a noite. uma vez stalker, sempre stalker.
tenha números no teu telefone que você nunca vai precisar. faça coisas achando impossível reencontrar os envolvidos até reencontrá-los. e aja como se nada tivesse acontecido.

leve essa pessoa pro seu pequeno apartamento caro demais. fique acordada o resto da noite com ela. alterne os cômodos. se sinta satisfeita quando ela for embora já depois da hora do almoço e tu estiver dormindo no chão da sala. aja como se isso fosse uma desculpa pra tu cair no sono no chão da sala.
saia pra dançar como se não houvesse amanhã. apareça pra trabalhar no dia seguinte coberta de hematomas que tu não sabe explicar. tenha aqueles lugares que tu considera tua casa, mesmo tendo que mostrar o RG pro segurança na porta toda vez. converse com mendigos, cachorros e gatos na rua. passe tempo demais refletindo sobre o rumo da tua vida encarando paredes de concreto. veja mais o sol nascer do que deveria. saia a noite com seus óculos escuros na bolsa. fique irritado com casais na fila do mercado e sinta falta dos dias largada no chão acompanhada de alguém de cuecas e caixas de pizza espalhadas pela casa.
esqueça de comprar papel higiênico e use guardanapos no banheiro até amanhã de manhã. compre cerveja e esqueça o papel higiênico de novo. pegue táxis caríssimos às três da manhã mesmo quando tu não tem dinheiro pra almoçar o resto da semana. finja que limpa o teu apartamento. finja que acredita que amanhã tu lava toda aquela louça.

conheça gente legal em lugares que tu não imaginava. converse com pessoas que tu jamais imaginou que falariam contigo. converse com desconhecidos do nada. aproveite esses momentos e ponha a culpa no destino, sorrindo de forma enigmática.
tenha mais fé na humanidade do que tu tinha quando morava em wherever você nasceu.

volte tarde cheirando a fumaça. fique se perguntando por que tu cheira a fumaça, mas saiba exatamente de onde veio a tal da fumaça. prometa que não vai gastar demais. espere por bebida de graça, mas acabe gastando todo teu dinheiro numa comanda perdida.
mande mensagens pra pessoas de quem tu sente saudades porque fica nostálgica de coisas que aconteceram semana passada.
seja solteira, meio solteira, meio enrolada por meses. ache alguém que tu gosta o suficiente pra assistir filmes junto. esqueça de pagar os amigos. ponha a culpa na tua juventude. young and reckless. ponha a culpa no álcool.
quase nunca coma vegetais frescos, mesmo sendo vegetariana. odeie o verão porque é quente demais e depois sinta falta dele porque a roupa não seca no varal. se conheça e se surpreenda com isso.
admita coisas que tu sempre soube. tu nunca roeria as unhas, até roer as unhas. esqueça todas as razões pelas quais se mudou pra cá e se apaixone pelas razões que tu nunca imaginou encontrar - aviões passando pela sua cabeça, ventanias e saber chegar a qualquer lugar de algum jeito.
acorde do outro lado da cidade e vá trabalhar muito atrasada rindo de si mesma. use como desculpa o fato de estar sozinha, o fato de aprender a cidade. odeie qualquer emprego que conseguir. odeie todos os bares que frequenta. e continue sozinha nos mesmos bares e trabalhando nos mesmos lugares. ame tudo e todo mundo. tenha ótimos dias.
encare a cidade como tua casa. jure que um dia vai embora.

então olhe a vista da sua janela. a odeie. smile.

1 imaginary friends:

doce amargo. said...

Eu posso fazer isso o resto da minha vida! Ah, e champagne quinta é por minha conta! haha.

*: