eles se conheceram num sonho.
agora eu me lembro. a primeira vez que eu o vi foi num sonho.
a música estava alta e tinha todas essas pessoas impossíveis em todos os lugares. gente impossível falando coisas impossíveis. ninguém sabia que era um sonho. em sonhos, a gente nunca sabe que é só um sonho, e ninguém percebe que as coisas impossíveis são impossíveis.
então, eles se conheceram num sonho. e não era O SONHO. não era incrivelmente colorido, ou poderoso, ou feliz. não tinha um cheiro diferente da realidade. não, era só um sonho. um sonho daqueles que tu tem numa noite de quarta feira depois de tomar cerveja demais, quando é quase manhã e tu fica se perguntando por que diabos tu tá bebendo tanto de novo. um daquele ssonhos que a gente não lembra, ou pelo menos não costuma se lembrar, porque nada realmente aconteceu pra se lembrar. as coisas e pessoas impossíveis não são realmente importante fora dos sonhos, talvez por isso elas só existam dentro das nossas cabeças. se não fosse aquela música, tocando tão alto, talvez eu não me lembrasse do sonho.
ela estava sentada, num canto do sonho segurando um cigarro sem realmente fumá-lo. pernas cruzadas em cima do banco. ele não estava sentado por perto. tinha acabado de entrar pela porta que ela não conseguia enxergar dali quando a viu pela primeira vez. e uma garota, sentada sozinha com seus pensamentos, fumando, em um canto da noite não chama sua atenção, então, ele não a notou na primeira vez que a viu. e ela não o viu at all. nessa hora, nenhum dos dois estava consciente da presença do outro. eu não posso dizer com certeza, mas o DJ deve ter notado algo. não dá pra ter certeza de nada em sonhos.
então, a música começou a tocar e essa outra garota levanta de repente. ela era alguém que você notaria até se fosse real. aquele tipo de garota que tu consegue sentir a presença mesmo antes de entrar no lugar. tu sabe que ali, tem uma dessas garotas. elas todas são a mesma e são todas diferentes. e quando tu encontra uma, tu sabe na hora que é ela. e ela e a garota fumando eram amigas. a música favorita começou a tocar e ela queria dançar. é exatamente por causa dessa música que eu disse que o DJ deve ter notado algo. então a garota apagou o cigarro e começou a dançar. e foi só aí que eu te vi. mas ele já tinha a visto primeiro. e apesar de todo o álcool que ele já tinha no corpo, ele tinha certeza de que a conhecia. porque especialmente em sonhos a gente reconhece todas as pessoas que a gente já viu. da vida [ir]real, de outos sonhoes e todas as outras dimensões em que já estivemos, a gente sempre sabe quando já conhece alguém.
dançando com a amiga, ela olhou pra ele várias vezes. ela imagina por que ele a encarava tanto. e por que ela encarava de volta? ele não era mais bonito do que nenhum outro ali [na verdade, ele nem era bonito, ela não achou], mas ela estava encarando.
ele tinha essa coisa. um tipo de charme, mas não era muito. não era gritante. parado ali, contra a parede, braços cruzados. e ele não parecia... possível. coisas possíveis não são atraentes em sonhos. na verdade, quando são? mas os sonhos especialmente são feito para as situações, coisas e pessoas impossíveis, não pras pessoas que tu pode ter uma noite qualquer e preta e branca da vida. então, ela o olhou nos olhos. tinha alguma coisa naqueles olhos, como se eles estivessem envoltos nesse líquido, tipo uma droga. era químico. ela não conseguiu mais tirar os olhos dos olhos dele.
então, tudo começou a girar. ele teve que se afastar e se apoiar contra a parede pra se manter de pé. sua amiga continuou dançando e não notou nada de estranho. ela não podia parar, era sua música preferida e "tu deve ter bebido demais de novo, ne~?".
líquidos invisíveis nos olhos d eum estranho. o que estava acontecendo comigo? mas ele notou. seu mundo também estava rodando e ele também tinha bebido demais de novo, mas ele viu que ela não estava se sentindo bem. ele fechou os olhos e chegou mais perto, com a mão acima de sua cabeça na parede.
- eu posso te fazer se sentir melhor.
ela não acreditou, mas o mundo estava girando, a amiga ainda dançava e ela ainda estava sob efeito de seus olhos, então, foda-se.
o que ela não conseguiu ver naquela hora era que aquela tontura ou o que quer que estava acontecendo era tudo culpa dele, então ela sorriu e se deixou ser beijada, ali, contra a parede. como se aquilo fosse realmente ajudar em alguma coisa.
o cheiro do momento foi nauseante. fazia tudo parecer real. álcoo, incenso, fumaça de cigarro e lágrimas e sorrisos. era indissolúvel e não combinava com oxigênio. odores brilhantes demais. ela ficou incomodada.
e quando ela teve a certeza de que estava bem, a música acabou. aquela música.
quando ele tinha os lábios nos dela, quando eles estavam um sobre o outro na vertical naquela parede, quando ela sentiu o chão voltar a ficar estável sob os seus pés, quando tudo aconteceu, a música acabou. e a música nunca deixa um lugar sozinha. músicas se misturam umas nas outras e seguram mãos e seguram cheiros e diziam adeus. mas até aquela música tinha que ir.
o que a gente estava fazendo?
e eles se separaram. de repente.
ela abriu os olhos, assustada.
bom dia, dia. estava acordada.
e ele abriu os olhos assustados.
como assim? estava acordado.
mas os olhos dela ficaram dentro dos dele, boiando no líquido tranlúcido e brilhante sem direção. não era um sonho.
a música ainda tocava. alta demais.
; LOUD.
Wednesday, March 09, 2011
posted by tally at 12:24 AM
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